Os Orixás e a criação do Mundo

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Por Mário César Barcellos

comentários por Alexandre Chagas

Namastê nº 31 -  Março de 2008

 

O mundo foi criado por Olorun, o Deus Todo Poderoso, em quatro dias. E, nele, Olorun colocou a terra, as montanhas, os mares, os rios, os ventos, os vulcões, os vegetais. Criou a vida nas águas e sobre a terra. E os vegetais se alimentam da água, da terra, da luz do sol. E os animais dos mares se alimentam dos vegetais aquáticos, de pequenos resíduos. E os animais sobre a terra se alimentam dos animais aquáticos e dos vegetais (...)

E Olorun criou o homem!

E Olorun lhe deu o Ori, a capacidade de pensar, de discernir, de criar, conforme sua vontade!

E o homem conheceu o mundo! Conheceu os destinos, a Natureza, a vida que pulsava dentro de si e em tudo à sua volta!

E o homem se alimenta dos vegetais, dos animais aquáticos e dos animais sobre a terra!

A Mãe-Terra provê tudo para os vegetais, para os animais aquáticos, para os animais sobre a terra e para o homem. A Terra dá, em abundância tudo o que for necessário para a permanência e para a manutenção da vida. A Terra proporciona ao "ser vivo" um sem número de opções para a sobrevivência.

É obedecido, assim, um ciclo. A Terra dá meios para a vida. O vegetal se alimenta da terra. Os animais se alimentam da terra. O homem se alimenta da terra (...)

E a Terra se alimenta de sangue! Alimenta-se do sangue que corre nas plantas, nos animais e no homem. O sangue é vida e a Terra, que dá a vida, se alimenta dessa mesma vida, num ciclo interminável.

Quando Olorun criou o mundo, não poderia fazê-lo sem dar a este mesmo mundo vida própria. Quem incapaz de ter vida poderia gerar vida? Como podemos admitir que este mundo, em seu todo, fosse uma grande massa morta? A terra em que pisamos tem vida. Ela vive de fato e faz gerar a vida A Terra é a grande Mãe, fecundada por Olorun, o grande Pai. Olorun foi o Criador, a Terra a receptora da luz da vida, gerando, em seu gigantesco ventre, milhões de formas de vidas que iriam habitá-la. A Terra continua sendo este ventre gigantesco, pois o ciclo da vida continua, e continua, e continuará para todo o sempre, até que a Terra não tenha mais vida própria e se torne incapaz de gerar mais vidas.

 

 

Extraído do livro "Os Orixás e o Segredo da Vida"

de Mário César Barcellos

 

 

COMENTÁRIO por Alexandre Chagas

 

Nesse texto maravilhoso e poético podemos verificar a semelhança dos ensinamentos dos antigos africanos com muitos ensinamentos espirituais do mundo.

Estamos dentro de um grande Útero físico e espiritual, capaz de nos dar sustentação e de também gerar e parir a nossa espiritualidade ao mesmo tempo em que somos fecundados com o Amor de Deus.

Ao aceitarmos um ciclo sem fim de vida e amor do qual fazemos parte também notamos que somos iguais a qualquer ser vivo (vegetal ou animal). Essa humildade dos antigos não era apenas entre os seres-humanos. Esse sentimento estava presente nas inter-relações de todos os seres vivos. Por este motivo, eles efetuavam rituais para agradecer a Mãe-Terra e a Olorun por poder ficar mais um pouco por aqui e aguardarem a libertação da Alma pela morte física.

Hoje em dia, os cientistas, psicólogos e médicos sabem que poderiam ter aprendido muito com os antigos xamãs e que infelizmente muito do antigo conhecimento foi perdido.

Por que então permanecer com este preconceito com outras culturas, como a dos irmãos africanos? Por certo, ninguém é obrigado a concordar totalmente com uma outra cultura, mas a predisposição interior para entendê-la com olhar amoroso e compreensivo já é um imenso avanço espiritual, capaz de externar a plenitude do ensinamento "amai uns aos outros", sem preconceitos ou sem julgamentos.

Quando vemos outras culturas e sentimos o desejo daqueles seres espirituais em contactar Deus estamos nos abrindo para essa mudança interior. Aliás, no texto acima há ensinamentos muito próximos àqueles contidos na cabalá judaica, no cristianismo, no budismo etc., bastando que leiamos o texto com entendimento, compreensão e coração aberto a ouvir Deus que habita dentro de nós.

A cultura africana tem muito a ensinar àqueles dispostos a ouvir seus maravilhosos ensinamentos.

Namastê repleto de axé a todos,

 

 

Alexandre Chagas

alexandre@luzcristica.com

 

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