|
|---|
|
|
Uma outra versão da morte de Jesus
Por Alexandre Chagas Namastê nº 31 - Março de 2008
Por certo você conhece a versão das igrejas acerca da morte de Jesus, qual seja: Ele foi entregue aos judeus, estes efetuaram uma série de atos reprováveis e praticamente obrigaram o Império Romano a crucificá-Lo. Há ainda a célebre frase do Governador Pôncio Pilatos de lavar as mãos acerca da vontade do povo, além de tentar persuadir os judeus para que escolhessem entre Barrabás e Jesus, mas o povo, incitado pelos sacerdotes judeus, escolheu Barrabás. Aliás, há vários filmes sobre o tema relatando essa versão histórica, mas existe uma versão diferente, a qual vale a pena conhecer para que possamos ter melhores condições de criar um conceito pessoal acerca do tema. Os maiores historiadores da antiguidade são Flavius Josephus e Tacitus, os quais deixaram inúmeros documentos usados pelos estudiosos bíblicos. Nesses textos temos que Jesus foi condenado e crucificado diretamente pelo Império Romano por promover atos que colocavam em dúvida o Poder de Roma e ameaçavam o Império (ao final vide a tradução da sentença de condenação de Jesus). Há documentos históricos extraídos da Casa de David os quais comprovam que Jesus tinha linhagem Real tanto pelo lado de seu pai (José) como pelo lado de sua mãe (Maria). Consequentemente poderia pleitear tornar-se Rei e ameaçar a hegemonia do Império. Por outro lado, sabe-se que o Sinédrio (Conselho dos Anciãos Judeus) participavam dos atos de condenação a título de "pro-forma", ou seja, tinham seus nomes ali colocados apenas para dar um aspecto de veracidade divina as decisões tomadas pelos romanos. Isso porque caso o sumo-sacerdote ou o próprio Sinédrio discordassem das vontades do Império corriam igualmente risco de serem mortos e substituídos por outros que aceitassem as determinações romanas. Por outro lado a crucificação deu-se na época da Páscoa judaica, ocasião na qual o Sinédrio e todos os judeus estavam reunidos para fins religiosos. O sumo-sacerdote e os anciãos deveriam preparar-se para a Páscoa a ser realizada na tardinha da sexta-feira (esta data de comemoração judaica sempre cai na sexta-feira) e, portanto, os preparativos da festa, como oferendas, mantimentos etc. deveriam ocorrer desde a manhã daquele dia, ante o grande número de pessoas presente ao evento (hoje se calcula que mais de 50.000 pessoas estavam em frente do Templo Sagrado). Assim, se desde a manhã da sexta-feira estavam os judeus a se prepararem para a festa da Páscoa é impossível que os dirigentes religiosos estivessem presentes à condenação de Jesus. Aliás, a festa de Páscoa é a data da libertação do povo judeu da escravidão egípcia e por certo naquele dia o povo estaria incitado contra o Império Romano e não contra Jesus, o qual, lembramos, tinha linhagem Real. Assim, seria um ato improvável que os dirigentes religiosos incitassem o povo contra Jesus e se colocassem favoráveis a Roma na data de Páscoa, seja pelo significado religioso dessa data ou, ainda, porque poderiam ser tidos como traidores do povo judeu, com possível pena de morte. Ao que consta nos textos apócrifos, Jesus foi levado ao Sinédrio pelos Romanos, para que os anciãos corroborassem com a sentença de morte. Mas os rabinos, pela data festiva nada poderiam fazer e disseram que lavavam as mãos caso Roma quisesse efetuar aludido ato. Claro que aqui há certa omissão dos dirigentes judeus, mas como condená-los por essa atitude, se é que ela mesma ocorreu? Segundo alguns estudiosos, quando o Imperador Constantino (século III) adotou o cristianismo como religião oficial do Império Romano, por certo pretenderam encobrir o envolvimento de Roma na morte daquele que eles próprios aceitavam como messias. Por esta razão os judeus foram escolhidos como bode expiatório da situação e únicos culpados pela crucificação de Jesus. O mais interessante é que ninguém contesta que São João Batista foi morto pelo próprio Império Romano, mas quando o tema é a morte de Jesus, os romanos aparecem como vítimas, quando a lógica e vários documentos demonstram o contrário. A própria Igreja Católica, herdeira indireta do Império Romano pouco poderia fazer para alterar fatos presentes na cultura popular por vários milênios, salvo promover a reaproximação entre judeus e cristãos, como vemos atualmente. Talvez a humanidade nunca saiba se alguma das versões acima está correta, mas o fato é que cristãos e judeus são povos irmãos e provavelmente foram vítimas históricas de manipulações políticas.
Alexandre Chagas
O conteúdo a seguir é a tradução de uma cópia autêntica da peça do processo de condenação de Jesus Cristo, existente no Museu da Espanha:
"No ano dezenove de TIBÉRIO CÉSAR, Imperador Romano de todo o mundo, Monarca invencível, na Olimpíada cento e vinte e um, e na Elíada vinte e quatro, da criação do mundo, segundo o número e cômputo dos Hebreus, quatro vezes mil cento e oitenta e sete, do progênio do Romano Império no ano setenta e três, e na libertação do cativeiro de Babilônia no ano de mil duzentos e sete, sendo governador da Judéia QUINTO SÉRGIO, sob o regimento e governador da cidade de Jerusalém, Presidente Gratíssimo, PÔNCIO PILATOS; regente na Baixa Galiléia, HERODES ANTIPAS; pontífice do sumo sacerdote, CAIFÁS; magnos do Templo, ALIS ALMAREL, ROBRÁS ACESEL, FRANCHINO CEUTAURO; cônsules romanos da cidade de Jerusalém, Quinto CORNÉLIO SUBLIME e SIXTO RUSTO, no mês de março e dia XXV do ano presente EU, PÔNCIO PILATOS, aqui Presidente do Império Romano, dentro do Palácio e arqui-residência, julgo, condeno e sentencio à morte, Jesus chamado pela plebe CRISTO NAZARENO e galileu de nação, homem sedicioso, contra a Lei Mosaica contrário ao grande Imperador TIBÉRIO CÉSAR. Determino e ordeno, por esta, que se lhe dê morte na cruz, sendo pregado com cravos como todos os réus, porque, congregando e ajustando homens, ricos e pobres, não tem cessado de promover tumultos por toda a Judéia, dizendo-se Filho de DEUS e REI de ISRAEL, ameaçando com a ruína de Jerusalém e do sacro Templo, negando o tributo a César, tendo ainda o atrevimento de entrar com ramos e em triunfo, com grande parte da plebe, dentro da cidade de Jerusalém. Que seja ligado e açoitado, e que seja vestido de púrpura e coroado de alguns espinhos, com a própria cruz aos ombros para que sirva de exemplo a todos os malfeitores, e que, juntamente com ele, sejam conduzidos dois ladrões homicidas; saindo logo pela porta sagrada, hoje ANTONIANA, e que se conduza JESUS ao monte público da Justiça, chamado CALVÁRIO, onde, crucificado e morto, ficará seu corpo na cruz, como espetáculo para todos os malfeitores, e que sobre a cruz se ponha, em diversas línguas, este título: JESUS NAZARENUS, REX JUDAEORUM. Mando, também, que nenhuma pessoa de qualquer estado ou condição se atreva, temerariamente, a impedir a Justiça por mim mandada, administrada e executada com todo o rigor, segundo os Decretos e Leis Romanas, sob as penas de rebelião contra o Imperador Romano. Testemunhas da nossa sentença: Pelas doze tribos de Israel: RABAIM DANIEL, RABAIM JOAQUIM BANICAR, BANBASU, LARÉ PETUCULANI. Pelos fariseus: BULLIENIEL, SIMEÃO, RANOL, BABBINE, MANDOANI, BANCURFOSSI. Pelos hebreus: MATUMBERTO. Pelo Império Romano e pelo Presidente de Roma: LÚCIO SEXTILO e AMACIO CHILÍCIO."
|