Tolerância

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Por Eliana Matthos

Namastê nº 25 - Novembro de 2006

 

 

                   Minha prima Clarice* sempre foi muito ativa. Teve três filhos e vários netos. Nos aniversários das crianças da família era sempre ela quem fazia o bolo confeitado para a festa. Assim foi por vários e vários anos. Hoje, Clarice encontra-se em uma cadeira de rodas: é vitima de uma doença degenerativa que a impossibilita de fazer as coisas que sempre gostou.

                   Na última visita que eu fiz à Clarice ela chorou muito por seu atual estado. Não consegue mais fazer por si. Disse-me: "Eliana, não posso mais fazer meus bolos para os aniversários das crianças. Quantos bolos fiz para as suas festas! Agora são as pessoas que têm que fazer tudo para mim. Não consigo mais..."

                   Eu, numa tentativa de aliviar seu sofrimento - pois eu não podia fazer mais do que isso – disse-lhe que já tinha feito muito por todos, que agora chegou a hora das pessoas fazerem por ela. Que aproveitasse então e recebesse! Colocasse o povo para trabalhar!

                   Ela sorriu, mas seus olhos não sorriram. Lá estava a tristeza olhando para mim.

                   Pensei muito tempo no que havia presenciado. Era nítido que não há nada para se fazer por ela, para tirá-la daquela tristeza. Me perguntei o porque daquela dor. A situação já está instalada, o que resta é administrar.

                   Aos parentes, cabe um exercício de Amor, Compaixão, Tolerância, enfim colocar em prática toda a Espiritualidade que estudamos.

                   E à minha prima, resta o que? Resta viver os dias que ela tem pela frente. E que sejam muitos! Mas como serão esses dias? Serão infernais ou amenos? Vi que é uma decisão dela.

                   Por vezes passamos muitas coisas na vida que acabam com tudo que temos como referência. Um ente querido, um trabalho, um carro, um processo de separação conjugal, uma coisa que tínhamos como ponto de referência na vida. Percebi em meus anos de trabalho como policial que não são os bens que são importantes, mas sim a importância que damos a eles como nossa "base". Uma vez conheci uma garota que havia tinha tido sua carteira furtada, sendo levados seus documentos e dinheiro. Eu, acostumada com grandes roubos, coisas de maior vulto, lhe disse: "Mas é só uma carteira, você ficou! Poderia ter sido bem pior..." ela então ficou me olhando e percebeu então que se tratava só de uma carteira e parou de chorar. Na verdade chorava pela perda da referência. Ela estava na Rodoviária de São Paulo, longe de seus parentes, de suas coisas e a carteira era a única coisa que lhe servia de base, de identidade, de "chão". Vão-se os anéis e ficam os dedos... ela notou que ela prosseguia, com ou sem uma carteira. Como minha prima...

                   Então observei que não adianta "brigar" com os fatos. Podemos até brigar, mas paramos quando notamos que estamos nos desgastando e que isso não adianta, que começamos a andar novamente quando olhamos para frente e dizemos: "OK. Então agora é assim que é. Vamos ver o próximo passo".

                   É um constante "se superar". Transcender. Em pequenos e grandes momentos de nossa vida. A vida é para ser vivida. É um constante exercício espiritual.

                   Não estudamos, nos aperfeiçoamos e rezamos para viver coisas espirituais "fora", em uma outra dimensão. Fazemos isso para aprender e viver diariamente o espiritual no material. Aprender, vivenciar aqui o que aprendemos. Como é em cima é embaixo. É aqui e agora. Nos pequenos e grandes momentos.

                   Não sei porque acontecem coisas ruins ou boas. Mas elas acontecem. E são nosso exercício de espiritualidade. A vida é um diapasão. Temos que nos afinar com ela, com as coisas que acontecem a nós e a nossos entes queridos. Melhor quando nos afinamos com as notas mais altas. Mas são as notas mais altas em nós mesmos. Com compreensão, tolerância e compaixão.

                   Há duas histórias que traduzem o transcender da dor em alegria de vida:

 

                   "Foi organizado um evento beneficente para tratamento de um médico, chamado Ram Dass, que havia sofrido um sério derrame. Depois de quase um ano de reabilitação ele já conseguia falar, mas aos soquinhos e procurando palavras. No fim do dia levaram a cadeira de rodas para o palco para ele dizer algumas palavras: "Durante anos pratiquei, como karma yogue, o caminho do serviço. Os livros que escrevi falam de aprender a servir, de ajudar os outros. Agora é o inverso. Preciso que me ajudem a levantar e a ir para a cama. Os outros me alimentam e levam meu traseiro. E posso dizer que é mais difícil ser ajudado do que ajudar! Mas este é apenas outro estágio. Parece que morri e renasci muitas vezes. Nos anos sessenta eu era professor em Harvard, e quando isso chegou ao fim, saí com Tim Leary espalhando a cultura psicodélica. Nos anos setenta morri para isso e voltei da Índia como Baba Ram Dass, o guru. Então, nos anos oitenta, passei a servir – participei da fundação da Seva Foundation, construí hospitais, trabalhei com refugiados e prisioneiros. Durante todos esses anos, toquei violoncelo, joguei golfe, dirigi meu MG. Desde que tive o derrame, o carro está na garagem, o violoncelo e os tacos de golfe no armário. Se eu me visse como o cara que não pode mais tocar violoncelo, nem jogar golfe, nem dirigir, nem trabalhar na Índia, eu sentiria uma pena terrível de mim mesmo. Mas eu não sou esse cara. No derrame eu morri de novo e agora tenho uma nova vida num corpo deficiente. É onde eu estou. É preciso estar aqui e agora. É preciso aceitar o currículo como ele é." **

 

                   "Um menino de quatorze anos matara um garoto inocente só para fazer bonito entre os membros de sua gangue. No julgamento, a mãe da vítima ficou em silêncio até o fim, quando o jovem foi condenado pelo assassinato. Depois do veredicto, ela levantou, olhou diretamente para ele e disse "Vou matá-lo". Então, o jovem foi levado para cumprir a pena de três anos em uma prisão juvenil. Depois de seis meses, a mãe do garoto assassinado foi visitar o assassino. Como antes ele vivia nas ruas, ela foi a única visita que ele teve. Conversaram um pouco e, antes de ir embora, ela lhe deu dinheiro para comprar cigarros. Depois disso, ela começou a visitá-lo cada vez com mais regularidade., levando-lhe comida e alguns presentes. Quando a pena estava chegando ao fim, ela lhe perguntou o que ele pretendia fazer quando saísse. Ele não tinha idéia e ela se ofereceu para lhe arrumar um emprego na empresa de um amigo. Então perguntou onde ele pretendia morar e, como ele não tivesse família, ela lhe ofereceu um quarto em sua casa. Ele morou nesse quarto durante oito meses, comeu a comida que ela fazia e trabalhou no emprego. Então, numa noite, ela o chamou à sala para conversar. Ele se sentou à sua frente e, depois de alguns momentos, ela começou a falar. "Lembra-se de que no tribunal eu disse que ia matá-lo?" "É claro que lembro", ele respondeu. "Nunca vou me esquecer daquele momento." "E foi o que eu fiz", continuou ela. "Eu não queria que o garoto que matou meu filho continuasse vivo nesta terra. Queria que ele morresse. Foi por isso que comecei a visitá-lo e a lhe levar coisas. Foi por isso que eu consegui o emprego e o trouxe para morar aqui em casa. Foi assim que eu comecei a modificá-lo. E aquele outro menino se foi. Então, agora que meu filho se foi e aquele assassino se foi, quero lhe perguntar se você quer ficar aqui. Tenho espaço e gostaria de adotá-lo, se você quiser." E assim ela se tornou a mãe do assassino do filho, a mãe que ele nunca tinha tido." **

 

                   Essas duas histórias nos mostram que a vida por vezes não é o que esperamos, não é fácil. Mas ela continua. Se continua há uma finalidade para nós aqui. A superação. E não superamos a dor com raiva. Ela pode ser um estágio, mas não é a solução. Nem tampouco a intolerância.

                   O segredo e superarmos. A vida – como se apresenta neste exato momento – é para ser vivida. Continuarmos nela, e não ficarmos presos em quadros já passados ou rezando pela morte. O milagre é diário. Em nós. Com tolerância, superação a alegria.

                   "Essa é a sabedoria da encarnação. Nela, entramos de bom grado na vida, sem medo e sem nos perder, despertos e livres naquilo que cada momento oferece, seja o que for." **

                   "Sinto raiva em situações de grande injustiça, mas depois penso que de nada adianta e, aos poucos, essa raiva se transforma em compaixão." – Dalai Lama.

                   Um grande Namastê para você.

 

 

Eliana Matthos

eliana@luzcristica.com

 

 

* - o nome e as características da pessoa foram preservados, a fim de não possibilitar sua identificação.

** - Textos extraídos no livro: "Depois do êxtase, lave a roupa suja" – de Jack Kornfield – Editora Cultrix

 

 

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