Sobre o Medo

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Por  Krishnamurti

Namastê nº 20 - Fevereiro de 2006

 

 

Iremos discutir juntos a questão do medo. Mas, antes de entramos nesse assunto, acredito ser indispensável aprender a arte de escutar. Aprender a escutar, não apenas o orador, mas os corvos, o barulho, escutar a musica favorita, escutar o marido ou a esposa. Porque, na verdade, não escutamos as pessoas, escutamos distraídos e chegamos logo a certas conclusões, ou procuramos explicações, mas nunca escutamos de fato aquilo que a pessoa nos diz. Vivemos sempre a traduzir o que os outros dizem.

... Há uma diferença entre a compreensão de palavras e a compreensão do verdadeiro estado de medo. Em geral, fazemos do medo uma abstração, ou seja, fazemos uma idéia do medo. Mas, ao que parece, jamais ouvimos a voz do medo, que conta sua história. Iremos juntos, agora, conversar a respeito disso.

Muitos perguntam por que os seres humanos, que habitam esta terra há milhões de anos e soa tão inteligentes em termos tecnológicos, não empregaram sua inteligência para livra-se do complexo problema do medo, o qual talvez seja uma das razões para a guerra, para o fato de matarmos uns aos outros. E nenhuma religião do mundo foi capaz ainda de resolver o problema; e nem os gurus, nem os salvadores; nem os ideais. Portanto, parece claro que nenhuma instancia externa – por mais elevada que seja, por mais popular que a propaganda a tenha tornado – nenhuma instância externa poderá jamais solucionar o problema do medo humano.

Vocês estão perguntando, vocês estão investigando, vocês estão se debruçando sobre o problema total do medo. E talvez tenhamos aceito de tal forma o padrão do medo que não desejamos mais nos afastar dele. Então, o que é o medo? Quais são os fatores que contribuem para provocar o medo? Da mesma forma como pequenos fios d'água e riachos acabam produzindo o tremendo volume do rio, quais são as pequenas correntes que produzem o medo? Que produzem a enorme vitalidade do medo? Porventura uma das causas do medo é a comparação? O comparar-se com outra pessoa? Obviamente que sim. A pergunta, portanto, é: será você capaz de viver uma vida sem comparar com ninguém? Compreende o que digo? Ao se comprar com alguém, seja em termos ideológicos, psicológicos ou mesmo físicos, há o anseio de tornar-se aquilo. E há o medo de não conseguir. É o desejo de preencher e você teme ser capaz de não preencher. Onde há comparação haverá o medo.

E então a pessoa se pergunta se é possível viver sem qualquer comparação, sem jamais se comparar, seja ela bonita ou feia, justa ou injusta, sem aproximar-se de um ideal, de algum padrão de valores. A comparação sempre está ocorrendo. Nossa pergunta é: será essa uma das causas do medo? Sem dúvida. E onde existe comparação haverá adaptação, haverá imitação. Nossa afirmativa, então é a de que a comparação, a adaptação e a imitação são causas que contribuem para o medo. Pode alguém viver sem se comparar, sem imitar, sem se adaptar psicologicamente? É claro que sim. Se esse são fatores que contribuem para o medo, e você está empenhado a acabar com o medo, em termos interiores não há comparação, o que significa que não há um vir-a-ser. O verdadeiro significado da comparação é vir a ser aquilo que você acredita ser melhor, mais elevado, mais nobre etc. A comparação, por conseguinte, é um vir-a-ser. Será esse um dos fatores do medo? Você precisará descobrir por si próprio. Em seguida, se esses forem os fatores, se a mente percebe esses fatores como produtores do medo, a própria percepção deles faz com que cessem as causas. Se uma dor de estômago é produzida por determinada causa física, a dor terminará quando se descobrir a causa. Do mesmo modo, onde quer que haja uma causa haverá uma cessação.

 

LIBERTE-SE DO PASSADO -

Qual o seu interesse fundamental, constante, na vida? Deixando de lado todas as respostas evasivas e abordando esta questão de frente e com honestidade, qual seria a sua resposta? Você sabe?

Seu maior interesse não é você mesmo? De qualquer forma, isso é o que a maioria de nós diria se respondesse com sinceridade. Estou interessado no meu progresso, no meu trabalho, na minha família, no pequeno lugar em que vivo, quero obter uma posição melhor, mais prestígio, mais poder, maior domínio sobre os outros e assim por diante. Acredito que seria lógico – admitir para nós mesmos que esse é o nosso maior interesse – em primeiro lugar, eu.

Alguns diriam que é errado estarmos interessados, antes de tudo, em nós mesmos. Mas o que há de errado, a não ser o fato – raro – de admitirmos isso de frente e com honestidade? Se o fazemos, isso nos deixa envergonhados. Então, eis aí – o interesse básico da pessoa é ela mesma e, por varias razoes, ideológicas ou tradicionais, ela acredita que isso é errado. Mas o que a pessoa pensa é irrelevante. Por que introduzir o fato de que isso é errado? Isso é uma idéia, um conceito. O fato é que, de forma fundamental e duradoura, a pessoa se interessa por ela mesma.

Você talvez diga que lhe dá mais satisfação ajudar outra pessoa do que pensar em você mesmo. Qual a diferença? Isso ainda é preocupação consigo mesmo. Se lhe dá maior satisfação ajudar os outros, você está preocupado com o que lhe dará maior satisfação. Por que incluir nisso conceitos ideológicos? ... o que desejamos é a satisfação, de todas as formas, sutis e óbvias. Quando afirmamos que queremos liberdade, nós a queremos porque acreditamos que é magnífica. A satisfação que ela traz, e a maior satisfação, é claro, é a auto-realização. O que estamos mesmo buscando é uma satisfação na qual não haja qualquer tipo de insatisfação.

... O medo é um dos maiores problemas da vida. A mente tomada pelo medo vive em confusão, em conflito e, portanto, acaba sendo violenta, distorcida e agressiva. Ela não ousa sair dos próprios padrões de pensamento, e isso gera hipocrisia. Escalar a montanha mais alta, inventar todo tipo de deuses, nada disso adianta: enquanto não nos libertarmos do medo de permanecermos na escuridão.

... O medo é sempre medo de alguma coisa; não existe medo abstrato, ele está sempre relacionado com alguma coisa. Você conhece seus medos? Medo de perder o emprego, de não ter dinheiro ou comida suficiente, ou do que os vizinhos ou o público pensarão a ser respeito, de ser desprezado ou ridicularizado; medo da dor e da doença, da dominação, de nuca saber o que é o amor ou de não ser amado, de perder a sua esposa ou os seus filhos, da morte, de viver num mundo que lembra a morte, da incrível monotonia, de não viver de acordo com a imagem que os outros construíram de você, de perder a sua fé... e o que você faz em relação a eles? Você foge, não é mesmo? Ou inventa idéias e imagens para encobri-los. Mas fugir do medo só faz aumentá-lo.

Uma das maiores causas do medo é o fato de não querermos ver-nos tal como somos. Portanto, não basta examinar os medos, é preciso examinar também a rede de meios de fuga que desenvolvemos para nos livrar dos medos. Se a mente, em que se inclui o cérebro, tenta superar o medo, reprimi-lo, discipliná-lo, controlá-lo, traduzi-lo em algo diferente, há atrito, há conflito, e esse conflito produz grande desperdício de energia.

A primeira pergunta que devemos fazer a nós mesmos é o que vem a ser o medo e como ele surge. O que significa a palavra medo? Estou me perguntando o que vem a ser o medo e não de que eu tenho medo.

Vivo um certo tipo de vida; tenho um certo padrão de pensamento; cultivo certas crenças e dogmas e não quero que esses padrões de existência sejam perturbados, porque neles se acham minhas raízes. Não quero que eles sejam perturbados, porque a perturbação produz um estado de desconhecimento, e isso não me agrada. Se me sentir arrancado de tudo aquilo que sei e em que acredito, quero, tanto quanto possível, estar seguro da situação para a qual me dirijo. Assim, as células do cérebro criaram um padrão e essas células do cérebro se recusam a criar outro padrão, que talvez seja incerto. Dou o nome de medo ao movimento da certeza para a incerteza.

...Há uma profunda camada na mente que, consciente ou inconscientemente, vive pensando sobre o que poderia acontecer no futuro ou preocupando-se com a possibilidade de eu ser dominado por Aldo do meu passado. Assim, tenho medo do passado e do futuro. O pensamento surge e diz: "tome cuidado para que isso não aconteça de novo", ou "prepare-se para o futuro. O futuro pode ser perigoso para você. Vem tem algo agora, mas pode vir a perdê-lo. Você pode morrer amanha, sua esposa pode fugir, você pode perder i emprego. Talvez você jamais venha a ser famoso. Você pode ficar sozinho. Você precisa garantir o seu futuro."

Agora examine sua forma particular de medo. Olhe para ele. Observe suas reações a ele. Você é capaz de olhar para ele sem sentir o impulso de fugir, de justificar, condenar ou reprimir? Você pode olhar para o medo sem a palavra que provoca seu medo? Você é capaz de olhar para morte, por exemplo, sem a palavra que suscita o medo da morte? A própria palavra provoca um temor, não é verdade? O mesmo ocorre com a palavra amor, que tem o seu próprio temor, a sua própria imagem. Mas, porventura, não é a imagem da morte de você possui na mente, a lembrança das muitas mortes que você viu e na associação que faz entre você próprio e esses incidentes, não é essa imagem que cria o medo? Ou você tem mesmo medo de chegar ao seu fim, e não da imagem que cria esse fim? Será a palavra morte que provoca o medo em você ou será o fim, propriamente dito? Se for a palavra ou a recordação que provoca o medo, isso, então, não é medo, absolutamente.

Você esteve doente dois anos atrás, digamos, e a lembrança dessa dor ou doença permanece, e agora essa lembrança diz: "tome cuidado, não fique doente de novo". Assim, a lembrança com suas associações, cria o medo, e isso não é medo, porque neste momento você, na verdade, goza de boa saúde. O pensamento, que é sempre velho, porque o pensamento é a resposta da memória e as recordações são sempre velhas – o pensamento cria, com o tempo, a sensação de que você tem medo, o que não é o fato em si. O fato em si é que você se encontra bem. Mas a experiência, que permaneceu na mente como recordação, faz brotar o pensamento: "tome cuidado, não fique doente de novo."

... Será o medo o resultado do pensamento? Se for, sendo o pensamento sempre velho, o medo é sempre velho... Não existe pensamento novo. Se o reconhecemos, ele já será velho. Então, do que temos medo é da repetição do velho – o pensamento sobre o que vem se projetando no futuro. Portanto, o pensamento é responsável pelo medo... Quando você se acha diante de algo, não existe, de imediato, o medo. O medo surge apenas quando o pensamento intervém.

Portanto, nossa pergunta agora é: será possível para a mente viver no presente, de forma completa e total? Só uma mente assim não tem medo. Mas, para compreender isso, você precisa compreender a estrutura do pensamento, das recordações, do tempo. E ao compreender isso – compreender não de modo intelectual ou verbal, mas na verdade, com o coração, com a mente, com as entranhas – você ficará livre do medo; a mente, então, poderá usar o pensamento sem criar o medo.

O pensamento, assim como a memória é, sem dúvida, necessário para a nossa vida diária. Ele é o único instrumento que dispomos para a comunicação, para trabalhar no nosso emprego, e assim por diante. O pensamento é a resposta à memória, memória essa que foi acumulada através da experiência, do conhecimento, da tradição e do tempo. E é a partir dos antecedentes dessa memória que reagimos, e essa reação é o pensamento. Assim, o pensamento é essencial em certos níveis, mas quando o pensamento se projeta psicologicamente como futuro ou passado, criando tanto o medo quanto o prazer, a mente fica embotada e, como conseqüência inevitável, vem a inação.

... Uma das funções do pensamento é a de ficar ocupado o tempo todo com alguma coisa. A maioria de nós deseja ter a mente sempre ocupada de modo que não possamos ver-nos como de fato somos. Temos medo de ser vazios. Temos medo de olhar os nosso medo.

Talvez perceba os seus medos conscientes, mas e aqueles das camadas mais profundas da mente, você tem consciência deles? E como fará para descobrir os medos ocultos, secretos? Deve o medo ser dividido em consciente e subconsciente? ... É de você mesmo que você precisa indagar: deve ser o medo ser dividido entre o das camadas conscientes e o das inconscientes? Ou existirá apenas o medo, que você pode traduzir sob diferentes formas? Só existe um desejo; só existe desejo. Você deseja. Os objetos de desejo mudam, mas o desejo é sempre o mesmo. Assim, talvez da mesma maneira, só existe medo. Você tem medo de todo tipo de coisa, mas existe um só medo.

... Quando você compreender que o medo é um impulso único que se expressa de diferentes formas, e quando perceber o impulso, e não o objeto ao qual se destina o impulso, você estará diante de uma questão formidável: como você pode olhar para isso sem a fragmentação em que a mente se especializou?

Só existe o medo total, mas como pode a mentem que só pensa de modo fragmentado, observar esse quadro como um todo? Será que ela consegue? Vivemos uma vida de fragmentação e só podemos olhar esse medo através do fragmentário processo do pensamento. Todo o processo do mecanismo do pensamento é o de quebrar tudo em fragmentos: amo você, odeio você; você é meu inimigo, você é meu amigo; minhas idiossincrasias e tendências peculiares, meu trabalho, minha posição, meu prestigio, minha mulher, meu filho, o meu país e o seu país, o meu Deus e o seu Deus – tudo isso é fragmentação do pensamento. E esse pensamento olha o estado total do medo, ou tenta olhar para ele, e o reduz a fragmentos. Portanto, vemos que a mente pode olhar para esse medo como um todo apenas quando não há nenhum movimento do pensamento.

Você é capaz de observar o medo sem nenhuma opinião, sem nenhuma interferência do conhecimento que você acumulou acerca dele? Se não puder, isso significa que o que você observa é o passado, não o medo; se você puder, você, então, estará observando o medo pela primeira vez sem a interferência do passado.

Você só pode observar quando a sua mente está quieta, da mesma forma como só pode ouvir o que uma pessoa diz quando a sua mente não está conversando consigo mesma, ocupada com o seu diálogo interior acerca de seus próprios problemas e ansiedades. Será que você pode, dessa mesma forma, olhar o seu medo sem tentar resolvê-lo, sem fazer surgir o seu oposto, a coragem – na verdade, olhar para ele e não tentar fugir dele? Quando você diz: "preciso controlá-lo, preciso me livrar dele, preciso compreendê-lo", você está tentando fugir dele.

... Assim, quando você entra em contato direto com o medo ou o desespero, com a solidão ou o ciúme ou qualquer outro ameaçador estado da mente, será que você é capaz de olhar para ele de modo tão total que sua mente se mantém tranqüila o bastante para enxergar?

É a mente capaz de perceber o medo e não as diferentes formas de medo – perceber o medo como um todo, e não aquilo que nos atemoriza? Se você se limita a olhar os meros detalhes do medo ou tenta lidar com seus medos um por um, você jamais chegará à questão central, que é aprender a viver com o medo.

Viver com lago vivo como o medo requer da mente e do coração uma extraordinária sutileza e que não tenham preconceitos, podendo assim acompanhar cada movimento do medo. Então, se você o observa e convive com ele - e isso não leva um dia inteiro, será inevitável a pergunta: "quem é a entidade que vive com medo? Quem é que observa o medo, que observa todos os movimentos das diversas formas de medo, da mesma forma como você percebe o fato central do medo? Será o observador uma entidade morta um ente estático, que acumulou grande quantidade de sabedoria e informação acerca de si mesmo; será essa entidade quem observa e vive com o impulso do medo? O observador é o passado, ou ele será algo vivo?" Qual a sua resposta? Não responda para mim, responda para você mesmo. Será você, o observador, uma entidade morta a observar algo cheio de vida ou será você um organismo vivo a observar algo também cheio de vida? Porque no observador existem os dois estados.

O observador é o censor que não deseja o medo; o observador é a totalidade de todas as suas experiências acerca do medo. O observador, então, é distinto daquilo que ele chama de medo; há um espaço entre eles; ele tenta sempre superar isso ou fugir disso e vem daí a permanente batalha entre ele mesmo e o medo – batalha essa que é um enorme desperdício de energia.

Como pode ver, você aprende que o observador é um mero amontoado de idéias e recordações sem nenhuma substância ou validade, mas que o medo é um realidade e que você tenta compreender um fato com uma abstração, o que, evidentemente, não conseguirá fazer. Mas, na verdade, será o observador que diz: "eu tenho medo", distinto do que é observado, ou seja, do medo? O observador é o medo e, quando isso é compreendido, não há mais dissipação de energia no esforço de ficar livre do medo, e desaparece o intervalo de tempo-espaço entre o observador e o observado. Quando você percebe que faz parte do medo, que não é separado dele – que você é medo – não é possível, então, fazer nada a respeito; e o medo, como um todo, chega ao fim.

 

Extraído do livro: "Sobre o medo"

De Krishnamurti

Editora Cultrix

 

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