Uma outra Maria Madalena
Por Alexandre Chagas
Namastê nº 18 - Novembro de 2005
Diversamente do que o leitor possa imaginar num primeiro momento, a grande maioria dos estudiosos bíblicos concorda que Maria Madalena nunca foi prostituta, tinha um "status" superior ao dos 12 apóstolos e foi uma figura essencial ao nascimento do cristianismo.
Nos fragmentos de textos coptas, cuja origem data do século II, há menção a várias mulheres que foram ao sepulcro de Jesus, que comprova a pureza de Maria Madalena, indiretamente. Eis o trecho:
Na manhã daquele mesmo dia, quando as trevas ainda estavam de fora, dirigiram-se ao túmulo as piedosas mulheres. Eis os seus nomes:
Maria Madalena;
Maria de Tiago, que Jesus salvou das mãos de Satanás;
Salomé, a sedutora;
Maria a seguidora de Cristo e Marta sua irmã;
Joana, mulher de Cuza superintendente de Herodes;
Berenice, que, em Carfanaum, foi curada da perda de sangue;
E a mulher pecadora, à qual o Salvador disse: "Teus pecados te estão perdoados".
(cf. Fragmentos dos Evangelhos Apócrifos. Petrópolis, Vozes, 2002, p. 203)
No fragmento acima, notamos que Salomé é chamada de sedutora, uma outra mulher é chamada de pecadora, outra Jesus teria salvado das mãos de Satanás e, acerca de Maria Madalena nada se diz, o que mostra que ela não era vista como redimida, prostituta ou sequer pecadora pelas primeiras comunidades cristãs.
Naquela época, o nome era a expressão da alma e, por isso, qualquer pessoa poderia mudá-lo. Corrobora essa assertiva o fato de Saulo ter alterado facilmente o seu nome para Paulo (o apóstolo).
Podemos aprender muito indo às origens do nome das pessoas daquela época e, no que diz respeito a Maria Madalena, seu nome semita era Mirian Mágdala.
Miriam é um substantivo com duas raízes, uma egípcia (myr = amada) e outra hebraica (yam = Deus).
Já Mágdala pode ter vários significados, mas destacam-se os seguintes: migdal é torre em hebráico e gadol, significa grande.
Assim, o nome de Maria Madalena podia ser traduzido como a Grande Amada de Deus, ou a Torre Amada de Deus ou, ainda, Grande Torre Amada de Deus.
Lembramos que na época, a torre era o lugar que mais sobressaia nas cidades e, portanto, seu nome significava que ela era "a Guardiã dos ensinamentos de Cristo" e também "era aquela que sobressaía diante dos apóstolos" (Cf. Faria, Jacir de Freitas. As origens apócrifas do cristianismo. Coleção Teologias bíblicas nº 16. São Paulo, Paulinas, p. 33).
O evangelho apócrifo de Felipe 59:9 confirma esse dado ao afirmar:
O Senhor Jesus amava Maria Madalena mais que todos os discípulos (...). Os outros discípulos viram-no amando Maria e lhe disseram: Por que a amas mais que a todos nós?"
E se Maria Madalena era "o discípulo mais amado" de Jesus (no masculino mesmo, vocês entenderão o porque mais a frente), por certo, este posto causava inveja perante os 12 apóstolos, que tinham de obedecer as ordens de uma mulher quando o mestre não estava (na época, a mulher nada valia, ante a sociedade ser extremamente machista, o que, por certo, causava cólera aos apóstolos).
Estas brigas internas encontram-se documentadas em uma passagem do evangelho apócrifo de Tomé, no logion 114, onde Pedro se opõe à influência de Maria Madalena, tendo Jesus ficado do lado de Madalena - para que o leitor entenda o que abaixo se transcreve, os estudiosos bíblicos afirmam que a expressão Homem (com "H" maiúsculo), é o mesmo que se unificar a Deus (Pai/Mãe). Eis o trecho contido no evangelho de Tomé:
Disse-lhe Simão Pedro (a Jesus):
Maria Madalena deve afastar-se do meio de nós porque as mulheres não são dignas da Vida.
Respondeu Jesus:
Eis que hei de guiá-la para que se torne Homem.
Ela também virá a ser um Espírito Vivo (...)
Com efeito, toda mulher que se fizer Homem entrará no Reino de Deus.
(Cf. Leloup, Jean-Yves. O evangelho de Tomé. Petrópolis, Vozes, 2000, p. 204).
Apesar de muitos interpretarem essa expressão com conotação sexual, a expressão era comum na época, para designar o "preferido" ou o "principal". A título de exemplo, na história do patriarca José (final do Gênesis), este era o "mais amado" por seu pai (Israel), mesmo que não fosse o primogênito. E isto causou a inveja e ira dos seus irmãos que o venderam.
Agora que vocês já sabem que Maria Madalena era "o discípulo mais amado", vamos agora a um trecho do cânon Oficial, contido no Evangelho de João:
E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Clopas, e Maria Madalena.
Ora Jesus, vendo ali sua mãe, e que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho.
Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa.
(Evangenho de João, 19:25-27)
Importante notar que o trecho acima não fala da presença de outras pessoas no momento. Aliás, não havendo nenhuma figura do sexo masculino relatada ao evento, após as descobertas arqueológicas do século passado (mencionadas mais a frente), a maioria dos especialistas bíblicos concorda que João estava se referindo a Maria Madalena - antes da descoberta dos apócrifos, se achava se tratar do próprio João, mas ele próprio não afirmava estar presente, o que era um enigma.
Apesar de Maria Madalena ser "o mais amado" e, portanto a que tinha melhores condições de dar continuidade às obras de Jesus, teve sua posição de destaque renegada a um segundo plano após a morte do Mestre, ante os preconceitos machistas da sociedade e, infelizmente, dos próprios apóstolos (confira esses absurdos em Cor I 11:7 a 9 e 14:34; Efésios 5:22; Pedro I 3:1 etc).
Agora que o leitor já sabe que o patriarcado machista não aceitou a liderança de uma mulher, conforme havia sido aconselhado por Jesus, avancemos no tempo uns 500 anos.
A Igreja Católica tinha adotado os ensinamentos dos apóstolos Pedro e Paulo, como sua verdade suprema, colocando as mulheres numa posição de total inferioridade nos cultos (até hoje elas o são).
Como a bíblia da época ainda continha textos que falavam da vida e obra da Grande Guardiã de Cristo, a situação histórica havia chegado a um ponto crucial: ou a Igreja Católica reconhecia o direito das mulheres, ou teria de eliminar das escrituras a figura de Maria Madalena, ante a sua imensa importância ao catolicismo. A hipótese escolhida, infelizmente, foi à última.
Nesta época (séculos IV a VI), o Decreto Gelasiano, do Papa Gelásio, e vários atos políticos da Igreja foram necessários para eliminar a figura feminina mais forte no Cristianismo da época: Maria Madalena.
Este Decreto incluía a pena de morte para todos os que mantivessem documentos não autorizados, incluindo todas as obras que falavam abertamente a vida e obra de Maria Madalena, dentre outros que ensinavam tanto que Deus estava no interior de cada um, como a pregação igualitária entre homens e mulheres (evangelhos de Tomé, de Maria Madalena, de André etc).
E estas obras "proibidas" passaram a ser chamadas de evangelhos apócrifos (expressão que designa "livros não usados na liturgia", com origem no substantivo hebraico ganúz).
Contudo, eliminar Maria Madalena das escrituras não era o bastante. Sua imagem devia ser maculada e ridicularizada, com o fim de se evitar que o sistema patriarcal ruísse. Resultado: começaram a falar que ela era uma prostituta, injúria esta a qual, infelizmente, persiste até os dias de hoje, ainda que não exista nenhuma passagem bíblica do cânon oficial que comprove tal assertiva baixe uma das bíblias digitais disponíveis na Internet e efetue uma pesquisa no Novo Testamento com a expressão prostituta; notará que nenhuma expressão se refere a Maria Madalena (comprove por si próprio, eu mesmo fiz e me espantei com o resultado nulo).
Importante salientar que nesta mesma época, muitos dos atos de Maria Madalena passaram a ser atribuídos a Maria, mãe de Jesus, porque a Virgem oferecia menos perigo ao catolicismo que Maria Madalena (a Virgem era a Mãe escolhida por Deus e, como uma mãe especial também estava acima das mulheres; já Maria Madalena, era uma mulher "comum", daí o seu perigo ao catolicismo patriarcal).
Nessa mesma época, o machismo deslavado chegou a um ponto tão extremista que, no séc. VI (585 D.C), a Igreja Católica discutiu seriamente no concílio de Mâcon se as mulheres eram criaturas humanas e se tinham alma. E foi neste mesmo período que Maria Madalena foi excluída do cânon e passou a ser chamada de prostituta redimida - para maiores detalhes desse absurdo histórico, aconselho a leitura de "Maria Madalena: de personagem do evangelho a pecadora redimida", de Lilia Sebastiani. Petrópolis, Vozes, 1995.
A história de Maria Madalena também altera alguns os conceitos acerca de Jesus (para melhor), a saber:
a) não desmerecia as mulheres ele enfrentou uma população em fúria para salvar uma mulher (que nada valia na época) de uma pena de morte por apedrejamento (que nunca foi Maria Madalena, segundo os apócrifos);
b) colocava homens e mulheres em pé de igualdade total e irrestrita ele colocou Maria Madalena como sua maior representante (acima dos 12 apóstolos), o que restou frustrado por motivos alheios a sua vontade. Aliás, dizia abertamente a homens e mulheres que todos eram filhos do Altíssimo;
c) combateu o patriarcado, mas também não aceitou o matriarcado, defendendo um sistema igual entre homens e mulheres, tanto social, como espiritualmente.
É triste verificarmos a permanência deste machismo deslavado em inúmeras religiões e, mais triste ainda, em escolas iniciáticas, as quais herdaram apenas a opinião de Paulo, Pedro, João etc sobre as mulheres e se esquecerem das opiniões do próprio Mestre Jesus (todos são filhos do Altíssimo, sem exceção).
Igualdade total e irrestrita entre homens e mulheres, isto sim é ser Justo! O contrário desculpe a franqueza, é ser hipócrita e contrário aos maiores ensinamentos de Jesus descobertos pela arqueologia!
Segundo Jacir de Freitas Faria (obra citada, p. 36), os apócrifos consideram Maria Madalena como:
a) espírito de sabedoria;
b) a personificação do conhecimento (gnose);
c) a amada de Jesus;
d) adversária de Pedro (o qual não aceita a liderança de Maria Madalena);
e) ministra da evangelização;
f) discípula de Jesus.
Felizmente no século passado foram encontrados fragmentos do evangelho de Maria Madalena, juntamente com as descobertas arqueológicas efetuadas em Nag Hammadi, Qumran e Benesa. Eis um pequeno trecho:
Após ter dito aquilo, o Bem-aventurado saudou-os a todos, dizendo:
Paz a vós que a minha Paz seja gerada e se complete em vós!
Velai para que ninguém vos engane dizendo: Ei-lo aqui. Ei-lo lá.
Porque é em vosso interior que está o Filho do Homem; ide a ele: aqueles que em marcha o procuram o encontram!
Anunciai o evangelho do Reino!
(MM, 8, 11-24)
Acima verificamos que Jesus afirma que Deus não
está aqui ou lá, mas no interior de cada um e que devemos buscá-lo
incessantemente a cada dia. Isto me parece uma verdade muito maior que um Deus
que olha por nós nos céus, cultuado pelo catolicismo.
Em outra passagem do evangelho de Maria Madalena (MM), há a mesma afirmação:
Pedro disse a Maria Madalena:
Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres.
Diz-nos as palavras que ele te disse, das quais tu te lembras e das quais nós não tivemos conhecimento.
Maria lhes disse:
(...) eu tive uma visão do Mestre, e eu lhe disse: Senhor, como eu posso te ver hoje nessa aparição?
Ele respondeu:
Bem-aventurada és tu, Maria, que não te perturbas à minha vista.
Onde está a chama divina do coração (nous) aí está o tesouro."
(MM 10, 1-16)
Fiquem em paz e que a Grande Guardiã dos ensinamentos de Cristo nos abençoe em nosso caminho.
Alexandre Chagas
alexandre@luzcristica.com
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