Abrindo a Porta das origens do Cristianismo

Namastê nº 17 - Novembro de 2005
Extraído do Livro "As Origens Apócrifas do Cristianismo"-
de Jacir de Freitas Faria, ed. Paulinas
Depois da morte de Jesus ano 33 da Era Comum até a redação dos primeiros escritos sobre ele, por volta dos anos 60/70 EC, temos um período vago de aproximadamente trinta anos. Nesse meio-tempo, sugiram disputas teológicas em torno da pessoa de Jesus. Para as comunidades cristãs era de fundamental importância compreender que ela era. No entanto, elas se defrontavam com o fato de que muitos discípulos e discípulas que conviveram com Jesus já tinham morrido. Alguns, como o apóstolo Paulo, por não terem conhecido pessoalmente Jesus, o anunciam ressuscitado. Outros, como Tiago, considerado irmão de Jesus e judeu piedoso de Jerusalém, tinham outra visão da missão de Jesus, pois com ele haviam convivido. Para Paulo, a história de Jesus começa na sexta-feira e termina no domingo da ressurreição. Para Paulo "em vão seria a nossa fé se não fosse a ressurreição de Jesus". Não só as cartas paulinas, mas os Atos dos Apóstolos refletem a disputa teológica entre Tiago e Paulo. Estudos recentes concluem que caso tivesse triunfado o Jesus de Tiago, o cristianismo teria outro perfil: mais aguerrido, de cunho judaico e menos afeiçoado ao império romano. Paulo, com certeza, anunciou a cruz de Jesus como libertação e não simplesmente para a salvação dos pecados. Impôs-se a segunda idéia, bem como a de Jesus ressuscitado.
Desse esforço coletivo para traçar o perfil do Mestre surgiram vários cristianismos, isto é, vários modos de interpretar Jesus, os quais classificamos, a seguir, segundo sua linha mestra de pensamento e a comunidade ou pessoa que o representa:
a) Cristianismo dos ditos de Jesus (Fonte Quelle, Tomé);
b) Cristianismo da cura e do caminho (Marcos);
c) Cristianismo do Jesus Filho de Deus, Messias e seguidor do judaísmo (Mateus);
d) Cristianismo da salvação para judeus e não-judeus (Lucas);
e) Cristianismo do discurso teológico elaborado e dos sinais (João);
f) Cristianismo do Jesus histórico e revolucionário (Tiago, Tomé);
g) Cristianismo do Jesus ressuscitado e glorioso (Paulo);
h) Cristianismo do Jesus ressuscitado que mora dentro de cada um de nós de forma integrada e que nos convoca a viver e testemunhar a harmonia (Maria Madalena);
i) Cristianismo gnóstico, que mostra Jesus, o ressuscitado que traz a salvação (Tomé, Maria Madalena, Felipe);
j) Cristianismo da apostolicidade, que indica a organização comunitária e hierárquica da comunidade para garantir a pregação da Boa-Nova do Evangelho (Atos dos Apóstolos e Cartas de Paulo).
Somos herdeiros desses vários tipos de cristianismos: Mateus, Lucas, Tiago, João e os demais que continuam vivos em nosso meio. Por outro lado, o cristianismo que teve primazia foi o da apostolicidade, por ter sido ele que o norteou as várias linhas de pensamento, tornando-se, assim, o cristianismo da oficialidade, o canônico. As outras correntes de pensamento, para também serem consideradas canônicas, tiveram que se adequar aos princípios da apostolicidade. "Os apóstolos foram perseguidos teologicamente e também perseguiram pensamentos diferentes no interior das comunidades". Na escolha do substituto de Judas, os critérios utilizados para selecionar os candidatos são: ser varão, ter sido discípulo de Jesus durante o tempo de sua vida terrestre e ter sido chamado e enviado a dar testemunho do ressuscitado. O texto bíblico (At 1,21-26) nos relata que o escolhido por sorte foi Mathias. Ao ler essa passagem de Atos, não questionamos o procedimento da escolha. Parece que houve consenso na indicação. No entanto, esse parece não ter sido o caminho lógico. O texto que temos à disposição já fora filtrado pela crítica. E é por isso que nos perguntamos: Por que Maria Madalena não poderia ter sido a escolhida? Só por ser mulher? Maria Madalena exercia forte liderança nas primeiras comunidades. Ela disputou, como veremos mais adiante, a liderança do grupo dos apóstolos com Pedro. No entanto, o grupo dos doze, que se impôs como único, impediu o registro de tais discussões. O evangelho de Maria Madalena nos mostra os conflitos que devem ter existido entre apóstolos Pedro, André e Maria Madalena.
Os relatos sobre Jesus são uma ínfima parte daquilo que ele fez ou disse. A escolha dos fatos a serem escritos está relacionada com a experiência da comunidade que os escreve, após tê-los guardado na memória. Jesus nunca escreveu nada sobre si mesmo. Nunca saberemos, de fato, tosa a sua historia, mas interpretações dela.
A pregação missionária, catequética e litúrgica da paixão e ressurreição motivou a formação dos evangelhos canônicos. Tomé não fala da ressurreição de Jesus. E Filipe chega a dizer que Cristo primeiro ressuscitou e depois morreu. Como entender esses vários modos de narrar o evento Jesus? Por que a tradição não revelou ou escondeu essas informações?
O cristianismo de João teve dificuldades para entrar na lista dos livros canônicos. Não seria o evangelho de João parente próximo do evangelho de Maria Madalena? Jesus a amou mais que aos apóstolos (evangelho de Maria Madalena 18,14). Não teria a comunidade de Madalena colocado na boca de João os seus ensinamentos para que estes pudessem ser aprovados pelos apóstolos e pela tradição? João não seria Maria Madalena, a discípula, companheira e amada de Jesus? Boa questão! Possivelmente não teremos resposta para ela, mas que após a morte de Jesus surgiram vários modos de interpretá-lo, os quais chamamos de cristianismos, disso não podemos duvidar.
Os evangelhos canônicos e as cartas são reflexos claros do cristianismo que se firmou como "verdadeiro". Os evangelhos, sobretudo, ao contar a história de Jesus, quiseram ser uma resposta ao grupo dos que pensavam que a vida terrena de Jesus não contava. E esses se transformaram em verdadeiras obras literárias. E belezas literárias assim tão verdadeiras só podiam ser inspiradas por Deus. Os apócrifos, segundo alguns estudiosos, desde o ano 50 da EC, corriam por fora nessa disputa teológica pelo perfil de Jesus. Ou foram colocados de lado? É o que veremos na seqüência de nossas reflexões.
A Boa-Nova de Jesus ressuscitado rompeu as fronteiras do judaísmo e chegou ao império romano. Somos filhos desse ardor missionário e apostólico. Viva Paulo e seus companheiros e companheiras de evangelização! Mas imagine se a escola de Tiago tivesse vencido Paulo e seus companheiros na batalha sobre quem detém e anuncia o perfil de Jesus. Não seriamos cristãos de outro modo? Ou já teríamos deixado de existir?
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