Na Encruzilhada - Quando a eternidade impregna o tempo
Namastê nº 15 - setembro de 2005
Por Osho
- comentado por Eliana Matthos
O tempo é aquilo em que vivemos é horizontal. É de A para B para C para D; está numa linha. A eternidade é vertical. Não é de A para B e de B para C. é de A para mais A para ainda mais. Segue para cima. É raro o momento em que a eternidade penetra o tempo, porque isso só acontece quando a meditação chegou ao amadurecimento, à maturidade, quando você alcançou o seu âmago mais profundo.
Então, de repente, você se dá conta de que você é uma encruzilhada. Uma linha segue na horizontal. Em outras palavras, é medíocre, comum, sem sentido, levando finalmente à morte. A linha horizontal está caminhando continuamente para o cemitério.
...Há uma história muito significativa:
"Um grande rei viu em sonhos uma sombra, e ficou com medo ate mesmo durante o sonho. Ele perguntou à sombra: "O que você quer?"
A sombra disse, "Não vim pedir nada. Só vim para informá-lo de que hoje à noite, no lugar certo, quando o sol estiver se pondo, você exalará seu último suspiro. Em geral, não venho para avisar as pessoas, mas você é um grande imperador; é só por respeito à você".
O imperador ficou com tanto medo que acordou suando, sem saber o que fazer. A única coisa que podia pensar era chamar todos os sábios, astrólogos, profetas e descobrir o significado do sonho. Pensa-se que a análise dos sonhos tenha começado com Sigmund Freud mas isso não é verdade; ela nasceu com esse imperador mil anos atrás!
No meio da noite, todos os profetas de sua capital, todos os sábios, todos os que estavam envolvidos de algum modo com o futuro os que liam os sonhos foram chamados e souberam da historia. Esta era simples, mas eles haviam levados suas escrituras e começaram a discutir uns com os outros: "Esse não pode ser o sentido" ou "Esse tem de ser o sentido".
Eles desperdiçaram tempo, o sol começou a nascer. O rei tinha um velho criado a quem tratava como um pai, porque o pai dele morrera muito cedo. O filho era muito jovem e o velho rei dera a tutela do filho a esse servo dizendo-lhe: "Cuide para que ele se torne o meu sucessor e não ponha o reino a perder". O servo fizera isso e, agora, era um homem muito velho. Mas ele não era tratado como um servo; era quase tão respeitado quanto um pai. Ele se aproximou do imperador e disse, "Quero lhe dizer duas coisas. Você sempre me ouviu. Não sou profeta nem astrólogo, e não sei que tolice está acontecendo, com as escrituras sendo consultadas. Uma coisa é certa uma vez que o sol nasceu, o pôr-do-sol não está muito longe. E essas pessoas chamadas eruditas nunca chegarão a uma conclusão em séculos. Num só dia... elas serão capazes de discutir, destruir os argumentos uns dos outros, mas você não pode esperar que eles cheguem a um consenso, a uma conclusão.
Que eles tenham suas discussões. Minha sugestão é: você tem o melhor cavalo do mundo esses eram os dias dos cavalos você pega o cavalo e foge deste palácio o mais rápido possível. Isso é certo: você não deverá estar aqui; você deverá estar longe."
Era lógico, racional, embora muito simples. O imperador deixou essas pessoas muito inteligentes e sábias discutindo elas nem sequer perceberam que ele partira. Certamente ele tinha um cavalo que valia um império. Ele tinha muito orgulho do cavalo; não se sabia de outro que tivesse a sua força. E havia amor entre o cavalo e o imperador, uma profunda afinidade, um tipo de sincronicidade. O imperador disse ao cavalo: "Parece que minha morte está prestes. Aquela sombra não era outra coisa senão a morte. Você tem que me levar tão longe quanto possível deste palácio."
O cavalo maneou a cabeça. E cumpriu a promessa. Quando anoitecia e o sol se punha, eles estavam a centenas de milhas do seu reino. Tinham entrado disfarçados num outro reino. O imperador estava muito feliz. Ele desceu do cavalo e o estava amarrando a uma árvore porque nem ele nem o cavalo tinham comido. Assim, ele disse ao cavalo: "Obrigado, meu amigo. Agora providenciarei o seu alimento e o meu. Estamos tão distantes, não há porque ter medo. Mas você confirmou as histórias que foram contadas a seu respeito. Você cavalgou como uma nuvem, velozmente."
E enquanto ele estava amarrando o cavalo à árvore, a sombra escura apareceu e disse ao imperador: "Eu tinha medo de que você não fosse capaz de fazer isso, mas seu cavalo é excelente. Também agradeço e ele este é o lugar e este é o momento. Eu estava preocupado você estava tão longe, como poderia trazê-lo? O cavalo cumpriu o destino."
Esta é uma história estranha, mas ela mostra que aonde quer que você vá horizontalmente, a qualquer velocidade, você terminará em algum cemitério. É estranho que a todo momento nossos túmulos estejam se aproximando de nós mesmo que você não arrede pé, seu túmulo está rumando para você. Em outras palavras, a linha horizontal do tempo é a mortalidade do homem...
Mas se você pode alcançar o centro do seu ser, o silêncio, do seu centro mais íntimo, você pode ver duas estradas: uma horizontal, outra vertical...
... Quando o homem se reconhece como uma encruzilhada, ele não pode ser desinteressado, não pode deixar de intrigar-se quanto à vertical. A horizontal ele conhece, mas a vertical abre uma porta para a eternidade, onde a morte não existe, onde a pessoa simplesmente se torna cada vez mais parte do todo cósmico onde a pessoa perde todas as formas de escravidão, até mesmo a escravidão do corpo...
...Quando a linha vertical é descoberta, a pessoa começa a mover-se na linha vertical. Essa linha não significa que você tem de renunciar ao mundo, mas certamente significa que você não é mais do mundo, que o mundo se torna efêmero, perde a importância... quer dizer simplesmente que você começa a viver uma vida interior que antes não era possível.
... No que concerne ao corpo, você pode arranjar-se bem facilmente, tendo em vista a lembrança de que você não é o corpo; mas este pode ser usado de muitas maneiras para ajudá-lo a mover-se na linha vertical. A penetração da linha vertical um raio de luz que penetra nas trevas de sua vida horizontal é o começo da iluminação.
... Você permanece no mundo mas o mundo já não exerce impacto sobre você. Pelo contrário, você começa a influenciá-lo não com esforço consciente, mas só pelo seu ser, pela sua mente, ele começa a estender-se ao redor.
... O homem que está movendo-se verticalmente torna-se quase um espelho. Se você se aproximar dele, verá a verdadeira face que pertence a você verá a sua feiúra, a sua ambição contínua, o pratinho com que mendiga.
... O que é a linha vertical? A do ser cada vez menos e menos, a ponto do vazio absoluto, a ponto de não ser ninguém... o homem da linha vertical é o sannyasin autêntico, o que está imensamente feliz por ser ninguém, imensamente feliz com sua pureza interior devida ao vazio, porque só o vazio pode ser puro está absolutamente feliz com a sua nudez, porque só o nada pode estar em harmonia com o universo.
Quando acontece essa sintonia com o universo, você não existe mais, de certo modo num sentido ultrapassado, você não existe mais. Mas você pela primeira vez é todo o universo. Até mesmo as estrelas distantes estão dentro de você; o seu nada pode contê-las. As flores, o Sol e a Lua... e toda a música da existência. Você não é mais um ego; o seu "eu" desapareceu; mas isso não significa que você tenha desaparecido. Pelo contrário, o momento em que seu "eu" desaparece, você aparece.
Esse é o grande êxtase de ser sem o sentimento do "eu", sem o sentimento de qualquer ego, sem pedir mais nada. O que mais se pode pedir? Você não tem nada nesse nada, sem conquistar, você se tornou todo o universo. Assim, as aves canoras não estão cantando apenas fora de você. Elas parecem estar fora porque esse corpo cria barreiras.
Na linha vertical você se torna cada vez mais consciência e cada vez menos corpo. Toda a identificação com o corpo desaparece. No nada, essas aves estarão dentro de você, essas flores, essas árvores e essa bela manhã estarão dentro de você. Na realidade, não há nenhum "fora". Tudo se tornou a sua visão. E você não pode ter uma visão mais rica do que quando tudo se tornou o seu interior. Quando o Sol e a Lua e as estrelas e todo o infinito do tempo e do espaço estão dentro de você... o que mais você quer?
Esse é exatamente o sentido da Iluminação: tornar-se tão não-existente na condição de ego que toda a existência oceânica se torna parte de você.
Kabir, um grande místico indiano, não recebeu uma educação formal, mas fez declarações muito significativas. Ele corrigiu uma delas antes de morrer. Ele fizera uma bela declaração por escrito quando era jovem. Ela era: "Assim como uma gota de orvalho escorre da folha de lótus ao sol da manhã, brilhando como uma pérola, para o oceano..." Ele disse: "O mesmo aconteceu comigo". Suas palavras são: "Tenho procurado, meu amigo. Em vez de encontrar, eu me perdi no cosmos. A gota desapareceu no oceano." Pouco antes de morrer, quando fechava os olhos, ele pediu a seu filho Kamal: "Por favor, mude a minha declaração."
Kamal disse: "Sempre suspeitei que havia algo errado nela". E ele mostrou-lhe o que escrevera, e a declaração já havia sido corrigida. A correção mesmo antes que Kabir compreendesse já tinha sido feita. Eis porque Kabir o chamou de Kamal "Você é um milagre". Kamal quer dizer "milagre". E o homem era um milagre. Ele alterara a frase conforme o desejo de Kabir: "Meu amigo, eu estava buscando e me procurando. Em vez de me achar, descobri todo o mundo, todo o universo. A gota de orvalho não desapareceu no oceano, mas o oceano desapareceu na gota de orvalho."
E quando o oceano desaparece na gota, a gota de orvalho está simplesmente perdendo seu limites, nada mais.
Na linha vertical, você se torna cada vez menos. E um dia, você não existe mais.
"Um mestre zen, Rinzai, tinha um hábito absurdo, mas belo. Todas as manhãs, quando acordava, antes de abrir os olhos, dizia: "Rinzai, você ainda está aqui?".
Seus discípulos diziam: "Que tipo de tolice é essa?"
Ele respondia: "Estou esperando o momento em que a resposta será: Não. A existência está, mas Rinzai não está".
Essa é a benção máxima. E, a menos que a pessoa alcance esse pico, ela continuará vagando em caminhos obscuros, cega, sofrendo, infeliz. Talvez acumule muito conhecimento, talvez se torne uma grande estudiosa, mas isso não ajuda. Só uma coisa, uma coisa simples, é a essência de toda a experiência religiosa, e isso é a meditação.
Você mergulha dentro de si. Será difícil sair da multidão dos seus pensamentos, mas você não é um pensamento. Você pode sair da multidão, pode criar uma certa distância entre você e seus pensamentos. É, à medida que a distância aumenta, os pensamentos começam a cair como folhas mortas porque é você e a sua identidade com os pensamentos que lhes dão alimento. Quando você não os alimenta, os pensamentos não podem existir. Você já deparou com algum pensamento em algum lugar, subsistindo por si mesmo?
Procure ser apenas indiferente a palavra de Gautama Buda é upeksha. Seja apenas indiferente a toda mente e certa distância será criada então siga até um ponto em que todo alimento para seus pensamentos termine. Eles simplesmente desaparecem; são bolhas de sabão. E, no momento em que todos os pensamentos desaparecem, você se achará na mesma situação, perguntando: "Rinzai, você ainda está aí?" E você esperará por esse grande momento, essa grande e rara oportunidade, em que a resposta será: "Não. Quem é esse fulano chamado Rinzai?"
Esse silêncio é a Meditação ela não é um talento especial... todo mundo pode ser iluminado, mesmo não se tratando de um talento; trata-se de sua natureza intrínseca, da qual você não está consciente. E você permanecerá assim se continuar cercado de pensamentos. A consciência de sua realidade máxima só surge quando nada há que a impeça, quando não existe nada à sua volta.
A linha vertical é rara. Ela talvez seja a única coisa rara na existência, porque leva na jornada da eternidade e da imortalidade. As flores que desabrocham nesses caminhos são inconcebíveis por meio da mente, e as experiências que acontecem são inexplicáveis. Mas, de um modo muito estranho, o próprio homem se torna a sua expressão. Seus olhos mostram a profundidade de seu coração; seus gestos, a graça do movimento vertical. Toda a sua vida se irradia, pulsa, e cria um campo de energia.
... E certa sincronicidade pode acontecer entre o coração do homem na vertical e o coração de quem ainda não está na vertical... no momento em que a sincronicidade acontece, nesse mesmo momento você também começa a mover-se verticalmente.
Essas palavras são simplesmente para explicar as coisas não passíveis de explicação apenas por meio de palavras.
Extraído do livro "Maturidade responsabilidade de Ser você mesmo"
de Osho Editora Cultrix.
Comentários (Eliana Matthos):
Cada vez que leio alguns trechos dos livros de Osho, eles me causam muita admiração. Explicam por meio de palavras vários sentimentos que temos e que ali se apresentam, de maneira crua, distinta, fazendo que os reconheçamos e vejamos o que por muitas vezes tentamos não ver, que sentimos e tentamos nos enganar que não estamos sentindo, que estão ali, à nossa frente, e não os acessamos, levados por uma vontade inconsciente ou não.
O ser humano, sei lá porque - pois há muitas e muitas teorias que podem explicar, por vários e vários ângulos a mesma questão, lógica... pensamentos tenta não ver e não sentir várias coisas que estão dentro dele.
Estamos acostumados a abordar essa questão pelo lado negativo, ou seja, que não quer ver que é ruim, que é mesquinho, barulhento, desorganizado, ciumento etc.
Interessante é observar que também nós não desejamos ver também o lado positivo! De aceitarmos que somos definitivamente Seres de Luz, que a Bondade, o Amor e outras virtudes realmente existem dentro de nós! Nós não nos permitimos sentirmos isso, que é bom! Trata-se de limites? O que seriam na verdade os limites? Que linha seria essa que nos separa que alguma coisa? Quem coloca a linha ali?
Podemos ter novamente várias teorias sobre isso... vários pensamentos, explicações... mas na verdade é algo interior, é algo que está dentro de nós e não nos permite sentir e ser tantos os aspectos "bons" quanto "ruins" de nós mesmos. Nos desejamos nos manter numa ilusão, em algo que criamos e que desejamos que não seja mexido, que não seja invadido, pois nos parece seguro... é o velho, o conhecido.
Quando fazemos o movimento, para qualquer lado que seja, nos arriscamos, saímos do conhecido, de nossa casca, da muralha de "segurança" que construímos em nosso redor, acreditando que assim não iríamos mais ser machucados, pois atrás do bom, sempre poderia vir o ruim... esquecendo que são somente "pontos de vista" nossos de uma determinada situação que passamos e que esses pontos de vista podem ser mudados.
Uso como exemplo uma pessoa que nunca tenha visto o Sol. De repente, um dia, ela sai de onde estava e olha diretamente para o Sol. É uma sensação "sentidamente" desagradável, algo que a machuca profundamente a vista e lhe causa um medo enorme de um dia tentar passar perto que algo que seja semelhante àquilo. Guardou a sensação. Mas... num outro dia, numa outra encarnação, outro momento, outro lugar, ela resolve que vai tentar olhar novamente para "aquilo". Inexplicavelmente, a visão que tem da coisa é maravilhosa, pois saiu num dia claro, onde o Sol estava se pondo, encontrando um visual inesquecível, uma mistura de tonalidades no céu (que nem tinha tido tempo da outra vez de observar que o céu estava ali!) estonteante... apreciou. Guardou a sensação. O que muda? O céu e o Sol são basicamente os mesmos. O que mudou foi o "ponto de vista" da pessoa, o ângulo que viu a coisa, a maneira que considerou a experiência "boa" ou "ruim".
Desejo que você tenha a coragem de se ver e que se permita sentir o seu lado bom, de Luz, de Amor. Desejo que tenha coragem de se permitir experienciar o Ser de Luz que você definitivamente é. Preencha-se... Mexa com a "linha" de seu limite e se permita Ser... e que sua mente acalme.
Que aceite trazer sua Essência Divina para caminhar sobre a Terra, unificada.
Arrisque-se...
Namastê.
Eliana Matthos
eliana@luzcristica.com
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