Terapia Corporal

Namastê nº 12 - Julho de 2005
Por Eliana Matthos
Excerto do
Livro (cabalístico) “Corpo Território do Sagrado”
de Evaristo
Eduardo de Miranda, Ed. Loyola
De forma mais profunda, as
grandes tradições religiosas ensinam e crêem: todo homem possui em si mesmo o
poder de curar. O terapeuta está no interior de cada um de nós. É
o Vivente que deseja “que nós tenhamos vida e a vida em
abundância” em todas as dimensões de nosso ser e de nossa família.
Cuidar do Ser implica devolver ao humano o corpo que lhe falta e a palavra
perdida. (...) Basta uma atitude justa: a abertura espiritual e o acolhimento
caridoso que permita ao Santo Espírito agir em nós e através de nós.
Essa energia
interior em hebraico é chamada de “simha”, alegria, a alegria, “hasimha”,
cujas letras hebraicas significam também o Messias, Machiá.
E quem leva o Messias dentro de si é o
desejo e a vontade do ser (...)
O primeiro passo terapêutico
é a abertura para receber, para conhecer. O desejo de receber é inerente à
criatura, assim como o impulso da doação. Nossos olhos buscam sempre novas
realidades. Nossos sentidos aspiram a novas impressões. O infinito desejo,
insaciável no humano, deve ajudá-lo a contatar com o Infinito. E o
corpo é um território de encontro. Conhecer o próprio corpo é vivê-lo.
A verdadeira tradição
judeu-cristã liberta o homem das dualidades espírito/matéria, corpo/alma, e
amor/lei. Elas (dualidades) esgarçam, rasgam e diabolizam o humano. Assim como o
sorriso e a gargalhada sacodem o espaço sonoro, a alegria rompe as cadeias dos
pensamentos pré-fabricados e as correntes das doutrinas mumificantes. A
alegria do Humano é a sua capacidade de inventar-se. Para muitos rabis,
sobretudo do hassidismo, todas as doenças só têm uma origem: a tristeza, a
degradação da alegria, a perda do objetivo que significa a alegria de existir.
Por isso, a vida terapêutica judeu-cristã não se trata de negar o corpo ou a
matéria, mas (..) poder santificá-los e transfigurá-los, como o fizeram Maria,
Maria Madalena e José de Arimatéia nos evangelhos. Ser capaz de colocar o amor
onde ele não está, onde ele não está mais, transformando a água turva do
cotidiano no vinho embriagante das núpcias, da alegria, das bodas de Caná.
Os sentidos existem
para nos despertar para realidades situadas além dos sentidos. O apelo
dos sentidos é de nos levar além dos sentidos. Não fixar, limitar ou reduzir a
pessoa aos sentidos e aos desejos que a alimentam. A tragédia é a de
tomar por única realidade o que os sentidos e desejos percebem. Existe
uma Realidade, bem maior e mais extraordinária do que as pessoas chamam
cotidianamente de realidade. Quem identifica o Real com o mundo e a experiência
dos sentidos está destinado ao sofrimento. É na força do desejo impulsionado do
interior (...) que vem o convite para, de olhos vendados, ver-se além dos
sentidos. A liberdade está em entender o campo dos sentidos como símbolos e
sentimentos interiores desse corpo, reduzido por tantos a uma grande e estéril
exterioridade.
(...) A verdadeira
iniciação corporal deveria levar a viver o Espírito com o corpo. (...)
Quem pratica meditação, yoga e dança busca estabelecer esses vínculos
abrangentes do ser com o corpo, vive seu corpo. Quem treina numa
academia, faz exercícios regulares e até intensos, mantém a máquina em dia,
cuida do corpo. Existe uma diferença fundamental entre
viver o corpo e cuidar do corpo, mesmo se essas realidades não são
totalmente excludentes.
A compreensão do simbolismo
do corpo, na tradição judeu-cristã, pode ser um instrumento para compreender
melhor seu dinamismo, sua inteireza e seus caminhos únicos de comunicação com o
divino. Mas pode ser mais ainda, segundo o Mistério de conhecer a cada um,
segundo o estado evolutivo de cada um (...)
Diz Rubens
Alvez que “os nossos corpos são finas camadas de carne que recobrem um poema.
Somos poemas encarnados”. Subamos amorosos, da base ao topo, das raízes à
fronde, dos pés a fronte e da terra à fonte dessa Árvore das vidas, em busca do
Esposo. Iniciemos a poética busca. Ele vem ao encontro.
Não o faremos porque temos um corpo, mas porque
somos corpo.
Comentários – por Eliana Matthos
Quanto ao trecho
selecionado, aos que nunca ouviram falar em “Vivente” ou “Esposo”, trata-se de
expressões usadas por Jesus nos evangelhos apócrifos para se referir a Deus.
Em nossa vivência espiritual, às vezes, podemos ter a percepção de que
para acessar o Divino devemos nos trancar em salas para Meditações ou em retiros
espirituais (sendo ambos maravilhosos, no que se propõe) quando então realizamos
o contato com nossa Luz. Mas, quando voltamos ao nosso cotidiano, não nos
sentimos “espirituais”, pois na maior parte do dia não estamos em atividades que
nosso mental entenda como “espirituais”. Somos gente comum, que têm emoções
comuns, que têm suas necessidades e desejos e ainda seus problemas pessoais para
serem resolvidos. Então, mantemos contato com a nossa Luz por alguns momentos –
os que conseguimos – e voltamos a ser pessoais normais e “pecadoras”.
Acreditamos, então, que o “espiritual” está em algum lugar “acima” de
nós. Um lugar onde às vezes, quando temos tempo e obtemos êxito, conseguimos
chegar perto. Nosso corpo físico é desprezado, como se pelo simples fato de
estarmos “dentro” dele somos Seres de menor categoria. Evitamos até sentir as
sensações que provêm deste corpo, onde humanamente nos manifestamos, como se
fossem dignas de desprezo ou vergonha.
O corpo físico é um Templo, onde obtivemos a autorização de permanecer
em nossa expressão durante um certo período. É um veículo que nos foi generosa e
amorosamente emprestado, para podemos ter experiências na Mãe Terra – Ser que
amorosamente nos acolhe. Então, para podermos permanecer humanamente no Planeta,
temos duas graças: a de recebermos um veículo emprestado e este veículo ser
acolhido pelo Ser Terra, o qual aceita nossa expressão.
Então, estranhamente, não agradecemos – e por vezes nem aceitamos – o
veículo que nos foi emprestado e pior, desrespeitamos tremendamente a dona da
Casa (Mãe Terra!).
Na verdade pensamos de forma equivocada, quando resolvemos “sair, ir
para cima, para baixo, para o lado” atrás de nossa Luz. A nossa Luz está em nós.
O “barato” está em trazer a Luz para a matéria, conscientemente. Que a nossa Luz
abranja toda a nossa manifestação, inclusive esse veículo maravilhoso que é
nosso corpo físico!!! Que todas as nossas células sejam Luz, em manifestação 24
horas por dia. Aqui e agora. Quando estamos comendo, conversando, caminhando,
trabalhando... Respirarmos a Luz, que somos nós e a sentimos em nosso corpo,
que é a manifestação física dessa Luz. Sermos a manifestação divina
caminhando sobre a Terra. Aqui, fisicamente. De bem com a
vida.
Eliana Matthos
eliana@luzcristica.com
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